
Chegava à casa dela. Uma casinha simples, em Boa Esperança de cima. O Mestre não viera, ficara em Boa Esperança de baixo, cheio de cachaça ou, quem sabe, preferira deixá-lo sozinho com ela. O Mestre, que se chamava Ataíde dos Anjos, sabia das coisas. Fazia música e pintava. Quadros bonitos, grandes, em geral sobre casamentos na roça e festas de folia de reis. Mas também ficava desagradável ao beber demais. E fora assim com ele, momentos antes. “Ela toca oboé. Tem boa embocadura, embocadura das boas. Oboísta, oboísta. Boa embocadura, pra oboé e tudo o mais”. E ria, ria, completamente bêbado. Pádua quase teve o ímpeto de acertar-lhe o queixo por onde escorria a dose de cachaça a umedecer o cavanhaque. Mas o Mestre adormecera.
Não havia campainha e da casa vinha uma música um pouco soturna, com piano e voz de barítono. Em alguma parte de sua juventude havia escutado aquilo. Sim, podia ser Schubert. Era um dos famosos ciclos dos lieder. Escutava coisas assim na época em que pensava aprender piano. Mas o pai não deixara, piano era coisa de bicha. Bateu palmas e gritou:
- Teresa, sou eu, Pádua!
De dentro, ouviu a voz meio rouca de cigarro:
- Entra, tô no banho!
Sem tranca, a porta moveu-se rápida ao primeiro empurrão. A sala parecia girar e então ele se deu conta da fome. Eram dias e dias a traçar doses de cachaça, vodca, conhaque e muitas, muitas garrafas de cerveja, sem nada de mais sólido no estômago. E se, naquele estado, fizesse um papelão na frente dela? Melhor talvez fosse sair correndo. Mas, tomado de torpor, largou-se aos almofadões espalhados pelo chão. Sim, o que escutava devia ser Schubert.
Olhou na estante a vitrolinha igual a tantas que havia na década de 1970. Mas o som não viria dela, encostada no canto. De repente, sentiu um cheiro forte de flor e Teresa apareceu num vestido estampado de saia rodada, descalça, a enxugar com a toalha os cabelos ainda desarrumados. Sorriu para Pádua, encantadora como sempre.
- Eu estava indo pro banho e coloquei Schubert, você conhece A Bela Moleira, indagou. E só então Pádua notou, embaixo da janela, o aparelhinho, um ipod dos mais modernos, para o qual Teresa se dirigia. Retribuiu o sorriso e murmurou:
- É, eu não me lembrava exatamente, mas percebi que era Schubert, algum dos famosos lied dele. Teresa completou:
- É quase uma piada que fiz. Preparei para as trutas um molho à belle munière e me lembrei dessa série de Schubert que, em francês, se chama exatamente A Belle Munière. Sabe, meu pai gostava imensamente de Schubert, era clarenetista e maestro de uma banda em Montes Claros. Aliás, eu me chamo Teresa por causa de Terése, soprano por quem dizem que Schubert teria sido apaixonado.
- Você se interessou pelo oboé por causa da clarineta do seu pai, indagou Pádua.
- Certamente que me influenciou muito, até hoje, mas o oboé foi, na verdade, a paixão por um som específico, um determinado momento de uma canção, num disco que era do meu pai e que acabou ficando comigo. Infelizmente, aquela coisinha ali está enguiçada e não tenho como escutar disco de vinil aqui, disse ela indicando a vitrolinha no canto.
- E qual canção impressionou tanto você com o toque de oboé, quis saber Pádua.
- Esta aqui, respondeu Teresa, mostrando a Pádua a capa de um disco que o fez sorrir. Disse a ele que o disco fora gravado no ano em que ela havia nascido, 1979. A canção que abria o disco começava com um toque de oboé e sobre ele as vozes do MPB4.
Uma iluminação parecia tomar conta da fisionomia de Pádua. Então o toque de oboé que encantara Teresa, desde criança, era o oboé do Braz, integrante do Quinteto Villa-Lobos. Mesmo sem escutar ali, naquele momento, a canção que se chamava Fantasia e era uma das mais inspiradas composições de Chico Buarque, Pádua conseguia reproduzir na cabeça o toque do oboé do Braz. E daquele oboé ele tinha outras lembranças.
De repente se viu voltar à platéia do Teatro Ginástico, no centro do Rio, onde viu, em meados da década de 1970, diversas vezes, o show O importante é que a nossa emoção sobreviva, com Paulo Cesar Pinheiro, Eduardo Gudin e Márcia. O Braz integrava o conjunto, ao lado de Copinha, Mestre Marçal, Wilson das Neves, Guinga e outros bambas. Lembrava de ter bebido café com o Braz em um botequim ali perto do Ginástico. Na época, bom desenhista, com talento para ilustrador, Pádua começava a enveredar pelo caminho das capas de disco, incentivado por Tadeu Valério e, depois, por Jô Oliveira.
Agora estava com 57 anos. Tinha aceito ser gerente em um restaurante em Nova Friburgo. Veio a enchente de 2011 e tudo fora arrasado. Completamente sem dinheiro, abrigara-se na casa do Mestre, em Boa Esperança. Também vivendo na pindaíba, Mestre Ataíde costumava comprar fiado em alguma venda ou no mercadinho do Fernando e da Lili. Até que vendia um quadro. E assim iam passando os dias. Certa noite, o Mestre chegou, disse que tinha vendido um quadro dos grandes para um turista alemão. Pegou Pádua pelo braço e a noite era deles. Foram embora para os lados de Lumiar e São Pedro da Serra. Comeram do melhor e beberam até vinho caro. Foi então que Pádua avistou, pela primeira vez, Teresa. Às vezes ela falava com ele, às vezes não.
Mineira, natural de Montes Claros, era engenheira ambiental. Aos 32 anos, trabalhava em consultoria de projetos ambientais na Região Serrana. Uma vez, chegou a pensar que poderia dedicar-se à música, como instrumentista, mas agora o oboé era apenas uma distração.
- Você quer cerveja ou prefere uma dose de cachaça, ela perguntou a Pádua. Ele, como se ainda dentro de um sonho, foi tornando a si. Ela achou graça e perguntou novamente.
- Então, moço, cerveja ou cachaça… ou água? Ah, posso fazer também uma limonada. Muito limão galego aqui no quintal.
Pádua a contemplava e quase se deixou levar pela história da limonada, até porque a fome aumentava e ele não queria ficar ali bebendo álcool de estômago vazio. Vai que ficava tonto, logo na frente dela. Mas achou de fazer uma brincadeira, para também ser simpático.
- Aceito o limão, mas com um bocadinho de cachaça. Ou um cadinho, que é como você há de dizer lá em Minas.
- É pra já, sorriu Teresa. E logo vinha com o limão exprimido e a dose de cachaça, ao mesmo tempo em que colocava sobre a mesa de madeira um prato que muito agradou aos olhos de Pádua. Uma porção de queijo cortado em cubos com orégano e azeite e um pouco de azeitonas e cebola. E, ao lado, umas torradas e um pratinho com uma pastinha.
- O queijo é parmesão, mas a gente até acredita que é provolone, você já deve ter comido por aí. E a pastinha é de ricota. Acabou ficando uma queijaria só, mas foi o que deu pra inventar.
Pádua tinha vontade de agradecer aos céus por aquela queijaria, mas sabia também que não podia demonstrar estar tão faminto. Tinha ido ali por causa dela. Ou, pelo menos, era o que seu pensamento lhe dizia nos últimos dias. Só a lembrança do seu sorriso fazia com que ele voltasse a ter vontade de desenhar, de pintar, de rearrumar a vida. E murmurava junto com a canção: “Um homem pode ir ao fundo, do fundo do fundo se for por você… pode inventar qualquer mundo como um vagabundo se for por você.”
E se aproximou da mesa com vagar, como quem saboreia e curte o instante sem sofreguidão. A porção de queijo e a pastinha de ricota acalentavam seu estômago e harmonizavam sua alma. Aprendera, ao longo dos anos, a tirar o melhor proveito das adversidades. Houve vezes em que, ainda se lembrava, na época em que morara num conjugado em Botafogo, desempregado, servia-se de colheradas de Nescau, sem leite, que era o que sobrava dos domingos que passava com os filhos ainda pequenos. Sentia o farelo do Nescau na língua e pensava que, ironia das ironias, aquele era o alimento que, naquelas horas, mantinha sua energia. Mesmo sem nada no bolso, insistia em ficar com os meninos naqueles domingos. Fazia uns ovos e uns hamburgers ou nuggets. Mas quase sempre o miojo era o cardápio da garotada. Agora, homens feitos, os três estavam cada qual em um canto do mundo.
Teresa colocou o ipod para tocar. Disse que, depois de Schubert, iam escutar um pouco de tudo. Tinha ali umas mil gravações de arquivos que um primo dela e amigos tinham baixado.
- E vai chegar muita gente aqui, Pádua perguntou.
- Devem vir os de sempre, que você certamente conhece. Há quanto tempo mora com o Mestre?
- Há uns nove meses. E você, está aqui desde quando?
- Há pouco mais de um ano. E nisso foram ouvindo os passos e o alvoroço da turma que chegava. A porta estava aberta.
- Oi, gente, vamos entrando, a anfitriã convidava.
Era uma turma heterogênea e, ao mesmo tempo, que combinava. Sabrina e Cássia, que viviam juntas há muitos anos e haviam se tornado grandes amigas de Teresa. Eduardo, biólogo e ambientalista, que trabalhava com a dona da casa. Sara, da geração de Pádua, que era taróloga. E Assis, que vivia de biscates e tocava pandeiro nas horas vagas. Conseguia fumo para Teresa.
Pádua se uniu a eles em festa. Do ipod vinha o som de Elis Regina, Clara Nunes, Elizete Cardoso, Tom Jobim, Noel Rosa, Aracy de Almeida, que se misturavam a Edith Piaf, Sergio Endrigo, Neil Yong, Bob Dylan, Baden Powell, Paulinho da Viola, Astor Piazzolla, Cássia Eller.
Entre brindes e risadas, Alguns ajudaram Teresa a colocar as trutas na mesa, as batatas cozidas e o arroz integral.
- O molho era pra levar camarão, mas não encontrei. Ia chegar hoje em Lumiar, vindo da Região dos Lagos, mas tive preguiça de ir lá, e o carro não está pegando direito, disse Teresa.
- E você acha, queridinha, que o camarão que se come aqui vem mesmo da Região dos Lagos, ironizou Eduardo. Mas, logo em cima, Sara cortou:
- Vem, sim, ô sabe-tudo de meia tigela! Pela estrada Serra Mar. Ou o grande ambientalista não conhece o caminho?
Pádua nem acreditava naquele banquete. Achou uma maravilha o prato de salada com produtos plantados ali mesmo, no quintal de Teresa. Nada mais do que hortelã, agrião, manjericão, tomate-cereja. Coisas de Teresa.
Durante o almoço, Pádua parava para prestar atenção na voz dela. Afinal, conversavam pouco, quase nada a tinha ouvido falar. Tudo dela vivia em sua imaginação. E olhou todos ali, em volta, no almoço de Teresa. Aquela era uma vida real, que ele queria.
A música continuava no ipod e os copos não ficavam vazios. Pádua havia inicialmente se encabulado com o fato de chegar ali sem, ao menos, uma garrafa de vinho. Mas não tinha importância. Era convidado. De todos. Mas gostava de pensar que era, principalmente, convidado dela.
Foi então que uma sequência de canções o tirou da conversa. Era Billie Holiday. Primeiro tinha vindo A Fine Romance, depois Isn’t This a Lovely Day e, em seguida, Everything I Have Is Yours. Se a próxima fosse What’s New, ele não teria mais dúvidas. Quando escutou a introdução da guitarra suave de Barney Kassel e Lady Day começou a cantar What’s New, Pádua experimentou uma sensação bem próxima de quem se vê prenhe de certeza. Sim, aquelas eram as gravações do álbum duplo lançado no Brasil pela Polydor, em 1978, sob o selo da Verve, a lendária gravadora de Norman Granz, que registrara grandes pérolas da história do jazz.
E talvez porque já embaralhado pelo álcool ou pela alegria de estar tão mais perto de Teresa, Pádua se impôs um exercício não muito fácil para aquele momento. Procurou lembrar-se de todas as músicas do disco e da sequência em que elas vinham. E lembrou-se que Cheek to cheek estava entre elas. Logo esta canção com a qual seria perfeito tirar Teresa para dançar. Pelo menos foi o que lhe pareceu.
Recordava-se que Cheek to Cheek estava no disco 2, talvez no lado B. Mas, não, talvez fosse do lado A do disco 2. Sim, era isso. O disco 2 do álbum duplo abria com God Bless The Child, seguida de Good Morning Heartache e Chek to Cheek era a terceira. Fez mais um esforço para lembrar-se de todas as canções do disco 1, selecionou-as uma a uma na cabeça em que se embaralhava seu pensamento, contou cada uma e as foi enumerando, para si mesmo. Numa sequencia ininterrupta, Cheek to Cheek seria a décima quinta faixa.
Mas estariam todas elas no ipod? E por que não? Se àquela altura, já escutavam I Get A Kick Out Of You que, pelas suas contas, era a quinta faixa do lado A do disco 1, a décima quinta, que era Cheek to Cheek, estaria dez faixas à frente. Cego de certeza, pediu que Teresa pulasse a música para dez faixas depois.
A um passo de tomar Teresa pela cintura e sair com ela em volteios, ficou inteiramente atônito ao perceber que a lista de Billie não incluía todo o disco. E a música que então tocava já era de outra lista. Simplesmente, uma lista de Cartola. O primeiro disco do compositor, lançado pela Marcus Pereira, em 1974, com produção de Pelão. E quantas noites Pádua havia saído com Pelão pelas noites de São Paulo, a encontrar Paulo Vanzolini, no Bar do Alemão. E ali falavam, exatamente, do primeiro disco de Cartola.
O que tocava, na sala de Teresa, era nada mais do que Acontece. Foi como uma revelação. Ao escutar “Esquece nosso amor, vê se esquece”, Pádua como que pareceu compreender tudo. Levantou-se como quem tem um surto de sobriedade e saiu por Boa Esperança sem nem sequer olhar atrás.
Escrito por André Luís Câmara