Meu mais novo parceiro

07/05/2012

Meu mais novo parceiro
Quem sabe, seu violão
Dê mais alento à ilusão
Num ritmo bem brasileiro

Que chegue assim, de repente
A melodia criada
Sobre meus versos de nada
A reunir toda gente

Me mande, quando puder
Em forma de choro ou baião
Mistérios daquela mulher
Sacana do meu coração  (Senhora do meu coração)

Escrito por André Luís Câmara

Ciranda de Camila

02/04/2012


Bonecos de argila,
brinquedos do ar,
vão fazendo fila,
fiquem a esperar,
que ela inda cochila
e há de despertar
pro sonho guardado na mochila,
olerê, olará.

Bonecos de argila,
brinquedos do ar,
o vento suspira
tonto, a embalar,
crianças da vila
querem agora brincar,
e ela se espreguiça,
quase a acordar.

Bonecos de argila,
brinquedos do ar,
dentro da mochila
passou tanto tempo,
e ela inda é a menina,
embora mulher feita,
pronta pra brincar,
reiventar a ciranda.

Bonecos de argila,
brinquedos do ar,
desarrumem a fila,
venham farrear,
minha filha, Camila,
acaba de acordar
pra vida que chega,
aos 18 anos, olerê, olará!
(5/1/1995 – 2/4/2012)

Imagens do Vagabundo amado por Drummond

14/03/2012


Jornais trazem a notícia do horror na Síria, com matança de crianças. É possível que, a esta hora, muitos, nos mais distantes recantos do mundo, pensem em desistir da vida. Os governantes continuam, em articulações pouco louváveis, a conduzir as coisas a um saco sem fundo de corrupção. A saúde existe apenas para quem pode pagar por ela, e a educação e a cultura se espatifaram na partilha pelo poder.

Mas não deixe, oh não deixe de ver a exposição Chaplin e sua imagem, no Centro das Artes Hélio Oiticica, no centro do Rio. Quem sabe, o dia não melhore, a ideia imbecil de felicidade propagandeada por grandes empreendimentos ainda venha a gerar mais angústia e, provavelmente, a grande máquina permaneça a esmagar talentos, ilusões, esperanças. No entanto, Carlitos resiste. Sorri.

Eu me lembro de, na década de 1970, nos meus dez anos, ter ido a uma mostra de seus filmes no Cine Pax, em Ipanema. Eram dias em que ele parecia estar mais presente. Aliás, a poucos quarteirões do Cine Pax, ficava a lanchonete Chaplin, que era decorada com cenas de seus filmes. Depois, essas joias foram parar na TV, ainda aberta, em sessões especiais aos domingos. Hoje estão em canais pagos, restritos a filmes cult ou na coleção de DVDs de aficionados ou, claro, no youtube.

A exposição tem curadoria do diretor do Musée de l’Elysée, em Lausanne, na Suíça, Sam Stourdzé, e reaviva a importância de Carlitos e a genialidade de Chaplin, chamado por Carlos Drummond de Andrade de O Homem do Povo, em versos a ele dedicados: “(…) era preciso que um antigo rapaz de vinte anos/ preso à tua pantomima por filamentos de ternura e risos dispersos no tempo,/ viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse/ para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema (…)”

Estão ali, em cinco salas, capas de revista, trechos inéditos de filmes, uma animação do cubista Fernand Léger em homenagem ao Vagabundo e centenas de fotos das mais diversas épocas, ao longo da carreira do extraordinário artista. E há ainda textos escritos por pensadores como Hannah Arendt, que, na década de 1940, em seu ensaio O judeu como pária, fez inovadoras observações a respeito da receptividade de Carlitos.

Em uma cidade que, embora maravilhosa, tudo vai ficando a cada dia mais caro, é um alento saber que Chaplin está de volta, para todos, de graça. Imperdível!

Chaplin e sua imagem
Terça a sexta, das 12h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h
Centro das Artes Hélio Oiticica
Rua Luís de Camões 68, Centro
(21) 2232 4213
Entrada franca
Até 29 de abril

“O Rio amanheceu cantando”

01/03/2012

Eu sei, vão dizer que a canção de Braguinha relembrada no título fala de um Rio que não mais existe. Há quem se intrometa de repente para frisar que o Carnaval que passou nem de longe é “aquele Carnaval dos bons tempos”. E que o Rio é uma cidade sem estrutura para eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas estou farto de saber.

É, o Rio está caro demais, tem muita gente esperta aproveitando a fama cada vez mais crescente da cidade. E, que triste, é um Rio sem bonde! Mas o Rio… ah, faz hoje simplesmente 447 anos! E eu vou no ritmo das palavras de Rubem Braga, na lírica de Vinícius, na flauta de Pixinguinha, nas harmonias de Cartola, na suavidade do Dolores Duran, no violão inconfundível de Nelson Cavaquinho, na prosa cativante de O Rio e eu, de Lygia Bojunga, vou perambular por aí só pra dizer ao vento: viva meu eterno Rio de Janeiro!

Galera encantada de Santa Teresa, todos hoje, ao entardecer, ao Gomez e ao Serginho! Afinal, mais que nunca, é dia de bate-papo na esquina, é o Dia do Rio!

Para curtir a homenagem de Chico, Toquinho e Vinícius ao Rio, clique aqui.

 

Escrito por André Luís Câmara

 

Teresa talvez fosse um lugar

24/02/2012

Depois que saíra pela porta da casa de Teresa e perambulara por Boa Esperança, Pádua nunca mais a vira. Já se passavam semanas. Voltara a fazer retratos. Vez por outra, algum turista se interessava. Desenhava o rosto das pessoas com perfeição. Cobrava pouco, mas já era algum dinheirinho que começava a entrar novamente.

Na tarde daquela quinta-feira, ele bem pensara em caminhar até a cachoeira. Mas foi desviado por duas alemãs que lhe pediram para fazer seus retratos. Gostaram tanto, que lhe pagaram o dobro do que havia cobrado. Pádua não perdeu tempo. Convidou-as a beber uma cerveja no Armazém do Sanchez, um senhor espanhol que se estabelecera por ali há décadas.

Foi então que se deu conta que não havia almoçado e nem mesmo tomara café da manhã. Era preciso beliscar algo. Felizmente, com o dinheiro dos retratos daria para pagar a conta, não seria necessário recorrer ao pendura, embora o velho Sanchez fosse daqueles que ainda vendiam fiado.

Pediu uma porção de salaminho e parmesão, uma cerveja, e se aventurou também numa dose bem servida de cachaça mineira. As alemãs quiseram caipirinha. O velho Sanchez se desculpou pelo pouco gelo, mas elas gostaram assim mesmo e sorriram. Pádua não sabia se tinham gostado do retrato ou se gostaram de conhecê-lo. Conversavam misturando inglês, espanhol e português. Riam e pareciam se entender.

Foi então que ela apareceu. Talvez nem se falassem, como muitas vezes acontecia. Mas Teresa veio lhe dar um beijo e emendaram numa conversa. Se bem que fosse uma conversa repleta de pausas. Pádua teve ali o pressentimento de que jamais conversariam realmente. Tudo não passava de uma impressão que logo viria a se desfazer, uma ilusão. Por que, afinal, aquela mulher se tornara para ele tão encantadora?

Chegaram os amigos de Teresa e, como de hábito, em vez de Pádua se integrar ao grupo, ficou meio de fora e se voltou ao encontro das alemãs. A noite avançou e as cervejas se acumularam. Talvez pelo fato de só ter se alimentado daquela porção de salaminho e parmesão, talvez pela cachaça e a cerveja, ou vai ver que pela presença de Teresa, sei lá, Pádua deu bobeira.

Logo após voltar do banheiro, viu que ela estava no balcão a falar com o Sanchez e tinha a seu lado diversas garrafas vazias. E ele, até então cuidadoso, falou qualquer coisa como “Bebeu isso tudo na minha ausência, Teresa”? A brincadeira soou inoportuna para ela, que fez uma careta, como quem diz “se manca” ou “se enxerga”. Pádua, desconcertado, esbarrou em uma pilha de copos sujos no balcão e três deles foram direto ao chão. Pouco acreditou ao ver os estilhaços. Bem ali, com cara de idiota, em frente à Teresa. Ela se abaixou e ajudou a recolher os cacos. Seu Sanchez riu, como quem diz “Não foi nada, meu filho”. Mas Pádua sentiu que, dentro dele, algo se partia. Teresa se foi sem se despedir. Assim como ele fizera na casa dela, semanas atrás.

Perto da meia-noite, chegou à casa de Mestre Ataíde, onde ainda estava hospedado. Ataíde dos Anjos pintava. Era um quadro a óleo que ilustrava a chegada de um trem numa estação do interior. Tinha um amarelo forte, iluminado. Exatamente como havia falado dias atrás, quando teve a ideia de fazer o tal quadro. Ataíde dos Anjos ainda realizava projetos, não era só de falar. Ao perceber a presença de Pádua, sem tirar os olhos da tela, disse apenas “Você ainda vai perder essa mulher”!

E vinha o Mestre novamente se meter onde não devia, pensou Pádua. Se nada havia entre ele e Teresa, como poderia perder o que nem tinha ainda sido seu… Mas o Mestre era danado! E sabia mesmo das coisas. É claro que Teresa era dele, na sua imaginação, no seu desejo, nos desenhos que dela fazia em segredo. Teresa era essa miragem que podia se desvanecer a qualquer momento.

Pádua bebeu água do velho filtro de barro e foi dormir. Na manhã seguinte, encaminhou-se para a cachoeira. Passou pelo vale de bromélias e centenas de marias-sem-vergonha. De certo modo, Teresa lembrava a ele plantas e flores. E lembrava também praia e cachoeira. E se Teresa fosse um lugar? Lembrou de Teresópolis e logo depois lhe veio à memória o bairro de Santa Teresa.

Por que nunca teria ido morar ali? Talvez fosse o bairro que mais amava no Rio de Janeiro. Aos 57 anos, com os três filhos criados, perdidos pelo mundo, solteiro, sozinho, quem sabe não havia chegado a hora de cumprir seu destino em Santa Teresa? Não, ainda não tinha como pagar aluguel. E tudo no Rio, pelo que diziam, estava tão caro… mas as flores ao redor da cachoeira, naquela manhã, pareciam explicar-lhe: Teresa era um lugar. E para lá ele iria.

Mestre Ataíde não se mostrou muito surpreso com a decisão e se limitou a dizer: “É com você”! Pouco depois, Pádua entrava no fusca do primo de um vizinho do Mestre, que se dirigia ao centro do Rio. De lá, caminharia até Santa Teresa.

Na viagem que duraria pouco mais de três horas, vinha agradecido pela carona, mas pouco conversava com o gentil motorista. Pela estrada lhe assaltavam lembranças há tanto tempo adormecidas. Tantos momentos de tentativas de mudança, de seguir em frente. Tantas as vezes em que se sentira sem saída e, mesmo assim, procurara reinventar seus caminhos. A imensa solidão dos seus passos na noite da primeira separação pelas ruas do Jardim Botânico. A montagem e a desmontagem sucessivas de suas estantes e de sua esperança nas outras tentativas de casamento.

E agora ia em direção a uma possibilidade remota de viver no lugar com o qual tanto sonhara, somente por causa de uma moça chamada Teresa, e que nem sabia de nada disso. Talvez tivesse que enfrentar a fome, o cansaço. Mas, à beira dos sessenta anos, ou enfrentava suas sombras ou sucumbia ao medo. E, quando se deu conta, o fusca já passava pela zona portuária do Rio e, depois de um engarrafamento, chegava nas imediações da Lapa.

Pádua agradeceu imensamente pela carona e foi na direção da Rua Joaquim Silva. Subiu os degraus da escadaria de azulejos coloridos, o maior mosaico do mundo diariamente retocado pelo artista plástico Selarón.

Chegou ao histórico muro do convento de Santa Teresa e parou no meio da ladeira para retomar o fôlego. Olhou o sol que iria se pôr dentro de instantes. Parecia a ele que era o sol da manhã. O sol que lhe trazia o amanhecer dos mais novos, à beira dos sessenta anos.

Parecia mesmo o sol da manhã. E era. Sua janela sem cortinas não lhe deixava dúvidas. A cada manhã o sol aparecia deslumbrante a perturbar seus olhos em seu apartamento no Curvelo. Enquanto se espreguiçava, percebeu que sonhara.

Estava em seu apartamento em Santa Teresa, nos fundos da Rua Dias de Barros. Tinha uma vista magnífica para a Baía de Guanabara. Orgulhava-se de saber que perto dali, nas décadas de 1920 e 1930, morara o poeta Manuel Bandeira. Foi exatamente durante sua moradia na então chamada Rua do Curvelo, que Bandeira parodiou O Adeus de Teresa, de Castro Alves, escrevendo Teresa, poema publicado em seu livro Libertinagem.

De onde teria tirado essa história de Pádua e Teresa? Não se lembrava de ter bebido tanto na noite anterior, no Bar do Serginho. E se deu conta que era domingo, 26 de fevereiro de 2012. O horário de verão acabara e era hora de atrasar o relógio para viver o tempo certo.

O Carnaval tinha sido muito bom. O bonde ainda fazia grande falta ao bairro. Como Teresa teria entrado no seu pensamento? E por que aquela idade de 57 anos, com a qual estaria somente dentro de uma década? Mas era 26 de fevereiro. Fazia um ano da morte de Mestre Messias, o Mestre Ataíde do seu sonho. Olhou, na parede da sala, o quadro de Messias dos Santos, Pedacim de Trem. Tinha realmente aquele amarelo forte, de luz.

A Rádio MEC FM tocava o Concerto para Oboé e Violino, de Bach. Teresa seria mesmo oboísta? Recordou uma antiga crônica de Rubem Braga que era tão adorada por um amigo seu e falava do remorso de não morar em Santa Teresa. Não, não se chamava Pádua e nem sabia desenhar coisa alguma. Mas morava em Santa Teresa e tinha três filhos por aí pelo mundo.

Contemplou da janela a Guanabara. Onde estaria Teresa para olhar essa vista com ele?

Leia a primeira parte desta história aqui.

Escrito por André Luís Câmara

A lua na Rua do Ouvidor

13/02/2012

A semana tinha começado com uma lua linda que eu avistei da Rua do Ouvidor. Não escrevi sobre isso e os dias se passaram rapidamente.

Hoje ouvi dizer que foi muito bonito. Pelas ruas de Madureira, antecedendo o Carnaval. Paulinho da Viola completamente emocionado, embalado pelo bloco que o homenageava. E Monarco cantando.

Na verdade, não senti como se tivesse perdido o desfile. Afinal, por uma dessas coincidências ou sintonias musicais, tinha ficado a escutar, em casa, durante bastante tempo, belos sambas do Paulinho.

Faz nove anos e uma semana. Naquele seis de fevereiro, pela manhã, o telefone tocou normalmente e escutei a voz do médico de plantão no hospital. Minha mãe acabara de morrer.

A quarta-feira de cinzas é sempre inadiável. Mas, para mim, o Carnaval de minha mãe resiste na contemplação dos blocos de rua, num samba bonito de Paulinho da VIola, na conversa com os amigos, na lua que insiste, cheia ou minguante, sobre o centro, o mar, a montanha desta cidade que minha mãe amava.

Aquela tarde com Teresa

01/02/2012


Chegava à casa dela. Uma casinha simples, em Boa Esperança de cima. O Mestre não viera, ficara em Boa Esperança de baixo, cheio de cachaça ou, quem sabe, preferira deixá-lo sozinho com ela. O Mestre, que se chamava Ataíde dos Anjos, sabia das coisas. Fazia música e pintava. Quadros bonitos, grandes, em geral sobre casamentos na roça e festas de folia de reis. Mas também ficava desagradável ao beber demais. E fora assim com ele, momentos antes. “Ela toca oboé. Tem boa embocadura, embocadura das boas. Oboísta, oboísta. Boa embocadura, pra oboé e tudo o mais”. E ria, ria, completamente bêbado. Pádua quase teve o ímpeto de acertar-lhe o queixo por onde escorria a dose de cachaça a umedecer o cavanhaque. Mas o Mestre adormecera.

Não havia campainha e da casa vinha uma música um pouco soturna, com piano e voz de barítono. Em alguma parte de sua juventude havia escutado aquilo. Sim, podia ser Schubert. Era um dos famosos ciclos dos lieder. Escutava coisas assim na época em que pensava aprender piano. Mas o pai não deixara, piano era coisa de bicha. Bateu palmas e gritou:
- Teresa, sou eu, Pádua!
De dentro, ouviu a voz meio rouca de cigarro:
- Entra, tô no banho!

Sem tranca, a porta moveu-se rápida ao primeiro empurrão. A sala parecia girar e então ele se deu conta da fome. Eram dias e dias a traçar doses de cachaça, vodca, conhaque e muitas, muitas garrafas de cerveja, sem nada de mais sólido no estômago. E se, naquele estado, fizesse um papelão na frente dela? Melhor talvez fosse sair correndo. Mas, tomado de torpor, largou-se aos almofadões espalhados pelo chão. Sim, o que escutava devia ser Schubert.

Olhou na estante a vitrolinha igual a tantas que havia na década de 1970. Mas o som não viria dela, encostada no canto. De repente, sentiu um cheiro forte de flor e Teresa apareceu num vestido estampado de saia rodada, descalça, a enxugar com a toalha os cabelos ainda desarrumados. Sorriu para Pádua, encantadora como sempre.

- Eu estava indo pro banho e coloquei Schubert, você conhece A Bela Moleira, indagou. E só então Pádua notou, embaixo da janela, o aparelhinho, um ipod dos mais modernos, para o qual Teresa se dirigia. Retribuiu o sorriso e murmurou:
- É, eu não me lembrava exatamente, mas percebi que era Schubert, algum dos famosos lied dele. Teresa completou:
- É quase uma piada que fiz. Preparei para as trutas um molho à belle munière e me lembrei dessa série de Schubert que, em francês, se chama exatamente A Belle Munière. Sabe, meu pai gostava imensamente de Schubert, era clarenetista e maestro de uma banda em Montes Claros. Aliás, eu me chamo Teresa por causa de Terése, soprano por quem dizem que Schubert teria sido apaixonado.

- Você se interessou pelo oboé por causa da clarineta do seu pai, indagou Pádua.
- Certamente que me influenciou muito, até hoje, mas o oboé foi, na verdade, a paixão por um som específico, um determinado momento de uma canção, num disco que era do meu pai e que acabou ficando comigo. Infelizmente, aquela coisinha ali está enguiçada e não tenho como escutar disco de vinil aqui, disse ela indicando a vitrolinha no canto.
- E qual canção impressionou tanto você com o toque de oboé, quis saber Pádua.
- Esta aqui, respondeu Teresa, mostrando a Pádua a capa de um disco que o fez sorrir. Disse a ele que o disco fora gravado no ano em que ela havia nascido, 1979.  A canção que abria o disco começava com um toque de oboé e sobre ele as vozes do MPB4.

Uma iluminação parecia tomar conta da fisionomia de Pádua. Então o toque de oboé que encantara Teresa, desde criança, era o oboé do Braz, integrante do Quinteto Villa-Lobos. Mesmo sem escutar ali, naquele momento, a canção que se chamava Fantasia e era uma das mais inspiradas composições de Chico Buarque, Pádua conseguia reproduzir na cabeça o toque do oboé do Braz. E daquele oboé ele tinha outras lembranças.

De repente se viu voltar à platéia do Teatro Ginástico, no centro do Rio, onde viu, em meados da década de 1970, diversas vezes, o show O importante é que a nossa emoção sobreviva, com Paulo Cesar Pinheiro, Eduardo Gudin e Márcia. O Braz integrava o conjunto, ao lado de Copinha, Mestre Marçal, Wilson das Neves, Guinga e outros bambas. Lembrava de ter bebido café com o Braz em um botequim ali perto do Ginástico. Na época, bom desenhista, com talento para ilustrador, Pádua começava a enveredar pelo caminho das capas de disco, incentivado por Tadeu Valério e, depois, por Jô Oliveira.

Agora estava com 57 anos. Tinha aceito ser gerente em um restaurante em Nova Friburgo. Veio a enchente de 2011 e tudo fora arrasado. Completamente sem dinheiro, abrigara-se na casa do Mestre, em Boa Esperança. Também vivendo na pindaíba, Mestre Ataíde costumava comprar fiado em alguma venda ou no mercadinho do Fernando e da Lili. Até que vendia um quadro. E assim iam passando os dias. Certa noite, o Mestre chegou, disse que tinha vendido um quadro dos grandes para um turista alemão. Pegou Pádua pelo braço e a noite era deles. Foram embora para os lados de Lumiar e São Pedro da Serra. Comeram do melhor e beberam até vinho caro. Foi então que Pádua avistou, pela primeira vez, Teresa. Às vezes ela falava com ele, às vezes não.

Mineira, natural de Montes Claros, era engenheira ambiental. Aos 32 anos, trabalhava em consultoria de projetos ambientais na Região Serrana. Uma vez, chegou a pensar que poderia dedicar-se à música, como instrumentista, mas agora o oboé era apenas uma distração.

- Você quer cerveja ou prefere uma dose de cachaça, ela perguntou a Pádua. Ele, como se ainda dentro de um sonho, foi tornando a si. Ela achou graça e perguntou novamente.
- Então, moço, cerveja ou cachaça… ou água? Ah, posso fazer também uma limonada. Muito limão galego aqui no quintal.
Pádua a contemplava e quase se deixou levar pela história da limonada, até porque a fome aumentava e ele não queria ficar ali bebendo álcool de estômago vazio. Vai que ficava tonto, logo na frente dela. Mas achou de fazer uma brincadeira, para também ser simpático.
- Aceito o limão, mas com um bocadinho de cachaça. Ou um cadinho, que é como você há de dizer lá em Minas.
- É pra já, sorriu Teresa. E logo vinha com o limão exprimido e a dose de cachaça, ao mesmo tempo em que colocava sobre a mesa de madeira um prato que muito agradou aos olhos de Pádua. Uma porção de queijo cortado em cubos com orégano e azeite e um pouco de azeitonas e cebola. E, ao lado, umas torradas e um pratinho com uma pastinha.
- O queijo é parmesão, mas a gente até acredita que é provolone, você já deve ter comido por aí. E a pastinha é de ricota. Acabou ficando uma queijaria só, mas foi o que deu pra inventar.

Pádua tinha vontade de agradecer aos céus por aquela queijaria, mas sabia também que não podia demonstrar estar tão faminto. Tinha ido ali por causa dela. Ou, pelo menos, era o que seu pensamento lhe dizia nos últimos dias. Só a lembrança do seu sorriso fazia com que ele voltasse a ter vontade de desenhar, de pintar, de rearrumar a vida. E murmurava junto com a canção: “Um homem pode ir ao fundo, do fundo do fundo se for por você… pode inventar qualquer mundo como um vagabundo se for por você.”

E se aproximou da mesa com vagar, como quem saboreia e curte o instante sem sofreguidão.  A porção de queijo e a pastinha de ricota acalentavam seu estômago e harmonizavam sua alma. Aprendera, ao longo dos anos, a tirar o melhor proveito das adversidades. Houve vezes em que, ainda se lembrava, na época em que morara num conjugado em Botafogo, desempregado, servia-se de colheradas de Nescau, sem leite, que era o que sobrava dos domingos que passava com os filhos ainda pequenos. Sentia o farelo do Nescau na língua e pensava que, ironia das ironias, aquele era o alimento que, naquelas horas, mantinha sua energia. Mesmo sem nada no bolso, insistia em ficar com os meninos naqueles domingos. Fazia uns ovos e uns hamburgers ou nuggets. Mas quase sempre o miojo era o cardápio da garotada.  Agora, homens feitos, os três estavam cada qual em um canto do mundo.

Teresa colocou o ipod para tocar. Disse que, depois de Schubert, iam escutar um pouco de tudo. Tinha ali umas mil gravações de arquivos que um primo dela e amigos tinham baixado.
- E vai chegar muita gente aqui, Pádua perguntou.
- Devem vir os de sempre, que você certamente conhece. Há quanto tempo mora com o Mestre?
- Há uns nove meses. E você, está aqui desde quando?
- Há pouco mais de um ano. E nisso foram ouvindo os passos e o alvoroço da turma que chegava. A porta estava aberta.
- Oi, gente, vamos entrando, a anfitriã convidava.

Era uma turma heterogênea e, ao mesmo tempo, que combinava. Sabrina e Cássia, que viviam juntas há muitos anos e haviam se tornado grandes amigas de Teresa. Eduardo, biólogo e ambientalista, que trabalhava com a dona da casa. Sara, da geração de Pádua, que era taróloga. E Assis, que vivia de biscates e tocava pandeiro nas horas vagas. Conseguia fumo para Teresa.

Pádua se uniu a eles em festa. Do ipod vinha o som de Elis Regina, Clara Nunes, Elizete Cardoso, Tom Jobim, Noel Rosa, Aracy de Almeida, que se misturavam a Edith Piaf, Sergio Endrigo, Neil Yong, Bob Dylan, Baden Powell, Paulinho da Viola, Astor Piazzolla, Cássia Eller.

Entre brindes e risadas, Alguns ajudaram Teresa a colocar as trutas na mesa, as batatas cozidas e o arroz integral.
- O molho era pra levar camarão, mas não encontrei. Ia chegar hoje em Lumiar, vindo da Região dos Lagos, mas tive preguiça de ir lá, e o carro não está pegando direito, disse Teresa.
- E você acha, queridinha, que o camarão que se come aqui vem mesmo da Região dos Lagos, ironizou Eduardo. Mas, logo em cima, Sara cortou:
- Vem, sim, ô sabe-tudo de meia tigela! Pela estrada Serra Mar. Ou o grande ambientalista não conhece o caminho?
Pádua nem acreditava naquele banquete. Achou uma maravilha o prato de salada com produtos plantados ali mesmo, no quintal de Teresa. Nada mais do que hortelã, agrião, manjericão, tomate-cereja. Coisas de Teresa.

Durante o almoço, Pádua parava para prestar atenção na voz dela. Afinal, conversavam pouco, quase nada a tinha ouvido falar. Tudo dela vivia em sua imaginação. E olhou todos ali, em volta, no almoço de Teresa. Aquela era uma vida real, que ele queria.

A música continuava no ipod e os copos não ficavam vazios. Pádua havia inicialmente se encabulado com o fato de chegar ali sem, ao menos, uma garrafa de vinho. Mas não tinha importância. Era convidado. De todos. Mas gostava de pensar que era, principalmente, convidado dela.

Foi então que uma sequência de canções o tirou da conversa. Era Billie Holiday. Primeiro tinha vindo A Fine Romance, depois Isn’t This a Lovely Day e, em seguida, Everything I Have Is Yours. Se a próxima fosse What’s New, ele não teria mais dúvidas. Quando escutou a introdução da guitarra suave de Barney Kassel e Lady Day começou a cantar What’s New, Pádua experimentou uma sensação bem próxima de quem se vê prenhe de certeza. Sim, aquelas eram as gravações do álbum duplo lançado no Brasil pela Polydor, em 1978, sob o selo da Verve, a lendária gravadora de Norman Granz, que registrara grandes pérolas da história do jazz.

E talvez porque já embaralhado pelo álcool ou pela alegria de estar tão mais perto de Teresa, Pádua se impôs um exercício não muito fácil para aquele momento. Procurou lembrar-se de todas as músicas do disco e da sequência em que elas vinham. E lembrou-se que Cheek to cheek estava entre elas. Logo esta canção com a qual seria perfeito tirar Teresa para dançar. Pelo menos foi o que lhe pareceu.

Recordava-se que Cheek to Cheek estava no disco 2, talvez no lado B. Mas, não, talvez fosse do lado A do disco 2. Sim, era isso. O disco 2 do álbum duplo abria com God Bless The Child, seguida de Good Morning Heartache e Chek to Cheek era a terceira. Fez mais um esforço para lembrar-se de todas as canções do disco 1, selecionou-as uma a uma na cabeça em que se embaralhava seu pensamento, contou cada uma e as foi enumerando, para si mesmo. Numa sequencia ininterrupta, Cheek to Cheek seria a décima quinta faixa.

Mas estariam todas elas no ipod? E por que não? Se àquela altura, já escutavam I Get A Kick Out Of You que, pelas suas contas, era a quinta faixa do lado A do disco 1, a décima quinta, que era Cheek to Cheek, estaria dez faixas à frente. Cego de certeza, pediu que Teresa pulasse a música para dez faixas depois.

A um passo de tomar Teresa pela cintura e sair com ela em volteios, ficou inteiramente atônito ao perceber que a lista de Billie não incluía todo o disco. E a música que então tocava já era de outra lista. Simplesmente, uma lista de Cartola. O primeiro disco do compositor, lançado pela Marcus Pereira, em 1974, com produção de Pelão. E quantas noites Pádua havia saído com Pelão pelas noites de São Paulo, a encontrar Paulo Vanzolini, no Bar do Alemão. E ali falavam, exatamente, do primeiro disco de Cartola.

O que tocava, na sala de Teresa, era nada mais do que Acontece. Foi como uma revelação. Ao escutar “Esquece nosso amor, vê se esquece”, Pádua como que pareceu compreender tudo. Levantou-se como quem tem um surto de sobriedade e saiu por Boa Esperança sem nem sequer olhar atrás.

Escrito por André Luís Câmara

Ainda um samba na madrugada

28/01/2012


O poema aqui publicado é extraído de um antigo blog meu, Conversa no Quintal. Eu o escrevi há três anos, por volta das duas horas da manhã do dia 26 de janeiro de 2009, após uma roda de samba no Bip-Bip, boteco do queridíssimo Alfredinho.

Ao relê-lo, agora, tive vontade de republicá-lo. Até porque as conversas pela madrugada continuam, nas esquinas de Santa Teresa. Adoraria que, qualquer dia, algum melodista pudesse musicar estes versos.

A referência que faço ao “ouvido de dentro” é a lembrança daquela história de Villa-Lobos explicando a Tom Jobim como compunha em plena balbúrdia, pois “o ouvido de fora nada tem a ver com o ouvido de dentro”.

Ao fazer o poema, meio escutei a voz de Paulinho da Viola cantando. Quem sabe, você também não escute o Paulinho ao ler ou reler isto aqui.

Um samba na madrugada
(Poema feito na volta da roda do Bip-Bip)

Acompanha meu silêncio,
como quem enxuga a lágrima.
Chega já sem sofrimento,
vem sereno, vem sem mágoa.

Nasce do ouvido de dentro
e se espalha pela sala.
Vai, aos poucos, me envolvendo,
muda a vida e a minha casa.

No vazio me aconchego,
depois da roda acabada.
Meu coração vai batendo
um samba na madrugada.

Escrito por André Luís Câmara

O bonde que queremos: dia 31 de janeiro, às 19h, no Parque das Ruínas

25/01/2012


Moradores de Santa Teresa convidam para o evento O bonde que queremos, na próxima terça-feira, 31 de janeiro, às 19h, no auditório do Parque das Ruínas. Na ocasião, será discutida proposta para trazer de volta o veículo que, há mais de cem anos, é a marca do bairro e de um pedaço do Rio sempre festejado na literatura, em canções, nas artes plásticas, na televisão, no cinema, nas fotografias.

Santa Teresa sem bonde não existe. Tanto assim que, mesmo parado, o bonde continua estampado nas camisetas, nas vitrines das lojas, nas conversas, na imaginação. E, além do mais, vale sempre lembrar esta imagem criada por Luiz de França, o Zód. Uma lágrima pelo bonde que inunda o coração do bairro e da cidade. É impressionante como este bonde a chorar se espalhou por todo canto.

Por isso, a convocação dos organizadores do evento no Parque das Ruínas merece o apoio de todos. Tanto melhor que a discussão aconteça às vésperas do Carnaval. Acredito que é, sim, com a alegria das Carmelitas, do Céu na Terra, do Aconteceu e do Badalo que podemos chegar a uma ideia comum sobre o bonde que queremos.

No convite, os organizadores dizem: “Estamos com saudade do nosso bondinho! Precisamos de uma proposta forte para colocá-lo de volta aos trilhos com a cara dos moradores de Santa Teresa, atendendo às nossas necessidades, alegre, subindo e descendo nossas ladeiras, servindo a todos com a honestidade e a poesia que sempre foram suas!”

Faço coro com eles. Mesmo que não haja consenso e que alguns até acreditem que seja impossível haver uma unidade em torno do bonde que queremos, nossa participação é muito importante.

Gente, vamos botar o bloco do bonde na rua!
Dia 31, às 19h, no Parque das Ruínas. Até lá!

Para saber mais sobre a proposta,
acesse http://obondequequeremos.blogspot.com/

Escrito por André Luís Câmara

De volta à cidadezinha

21/01/2012

Guignard_ Visão de Ouro Preto_1960
Thiago parou um instante sobre o pequeno muro. Lá embaixo, a cidade amanhecia por entre a névoa de junho. Um frio mais que de inverno penetrava-lhe em recordações. Eram pouco mais das cinco horas, com ele só alguns tinham vindo no ônibus saído de Belo Horizonte. Talvez fosse o caso de voltar atrás. Tornar àquelas emoções era prova de que continuava a insistir em criancices.

Vinha convidado. Fora incluído na lista de participantes do congresso de mídias e novas tecnologias pelos artigos que publicava em revistas e páginas da internet especializadas. Escrevera uns poucos roteiros para vídeos, mas nada do que imaginara que faria nos anos passados ali.

Naquele mesmo mirante onde se encontrava, sonhara abraçar a cidade como ao próprio mundo. Tudo ainda estava por vir. Porém, ele sabia, o que viria fora adiado tanto, que envelhecera na espera, enxovalhara. Então, era caminhar ladeira abaixo sem ressentimento nem expectativa. A vida ia assim conforme sempre. Aquele cheiro de história, aqueles sobrados todos, as casas e a gente simples tinham um modo curioso de dizer bom-dia, meio desconfiado, meio camarada de quem chega.

Thiago ensaiava sorrisos enquanto descia a ladeira. Era esperado no hotel. Bem diferente da primeira vez em que ali chegara à procura de um quarto de pensão para passar as férias. Era todo ansiedade. Agora tinha aprendido a ir levando mais o cotidiano com suas coisinhas bobas às vezes melhores ou quase-quase ruins. Que importava! No hotel o aguardavam e teria coisas a dizer no tal congresso.

Mas antes carecia de devanear um pouquinho. Como se estivesse ali Thiaguinho, o Guinho, doido para se deixar esquecer e pular fora do mundo, doido por um mito, uma embriaguez, doido assim de nem explicar como. Correu até à Praça da Matriz, olhou a igreja ainda linda, no meio daquele vale tão pobre, daquela região tão judiada de histórias de escravos, de liberdade sufocada, de amor que passou, e agora também de chuvas impiedosas.

Pegou a ruazinha à esquerda, na direção do mercado em que tantas vezes bebera cerveja e cachaça com mel beliscando pedacinhos de um bom queijo do Serro. De repente viu. Ainda lá. O sobrado que abrigava o desejo de morar barroco. No segundo andar, a janela já um pouco diferente, com flores novas. E a sacada que, vai ver, já não era a dela. Nem o sobrado, que podia ter sido vendido pela família. Viveria ainda na cidade? Quase certo que sim. Casada, talvez, então. Mas…

Já se movimentavam, beatas iam abrir as igrejas.  Falariam o que dele olhando a casa dos outros? Ainda pensou em perguntar a um velho que mascava fumo se sabia quem morava no sobrado, mas hesitou um bocado. Decidiu ir para o hotel. Estava ali pelo congresso. Não era mais o Guinho, é verdade. Só não sabia que diacho iria fazer de Thiago.

Escrito por André Luís Câmara


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