Vanzolini na Esquina do André

29/04/2013

 

A morte de Paulo Vanzolini me trouxe à lembrança o encontro com ele ao qual faltei no início dos anos 1980, quando seríamos apresentados por um tio avô que dele era muito amigo.

Passaram-se décadas, tive o privilégio de fazer seu verbete para o Dicionário Cravo Albin da MPB. Nunca nos encontramos, a não ser no casamento de uma prima minha, filha do tal tio avô muito seu amigo. Na ocasião, me deu um cartão com seu endereço e me disse que o procurasse em São Paulo.

Nunca mais nos vimos. Mas chegamos a trocar mensagens pela internet por volta de 2002, por aí.

Em meu primeiro blog, Esquina do André, publiquei um texto que aqui transcrevo. Um abraço, Vanzo!

 

Um samba de Vanzolini


Paulo Vanzolini

Vinicius que me desculpe, mas não, São Paulo não é o túmulo do samba. Nos deu Vadico, Adoniran, Eduardo Gudin, Geraldo Filme, Carlinhos Vergueiro… sobre a música de São Paulo, José Geraldo Vinci de Moraes escreveu Métropole em Sinfonia, publicado pela Estação Liberdade. Vale a pena a indicação para quem procura esquinas e ruas de mão-dupla nas afinidades culturais.
E São Paulo nos deu (saravá, meu!) Paulo Vanzolini. Sobre ele, tive o privilégio e o prazer de escrever um verbete para o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira (o link para o Dicionário está disponível no canto direito deste blog). Primeiro pelo inesquecível samba-canção Ronda (“E nesse dia, então/ vai dar na primeira edição/ cena de sangue num bar/ da Avenida São João”), talvez pelo recado maravilhoso de Volta por cima (“reconhece a queda/ e não desanima/ levanta, sacode a poeira/ e dá a volta por cima”) Vanzolini se firmou como um dos grandes nomes da MPB, além de ser um dos cientistas mais notáveis (é reconhecido como um dos grandes nomes da Zoologia) e fundador da FAPESP.
Em 2002, a Biscoito Fino lançou a obra completa do compositor em quatro CDs. Como a poesia de Manuel Bandeira, as canções de Vanzolini são poucas, mas vastas e admiráveis, dando a falsa impressão de serem simples e pouco refinadas. Como Schiller se referia ao poeta ingênuo e sentimental, penso que tanto a poética de Bandeira quanto a de Vanzolini podem asim ser definidas: “Poetas desse gênero ingênuo já não estão em seu devido lugar numa época artificial do mundo. Nela também já não são quase possíveis, ao menos não são possíveis de nenhum outro modo a não ser que andem ao arrepio de sua época e sejam protegidos por um destino favorável contra sua influência mutilante…” (Schiller, Friedrich. Poesia ingênua e sentimental. Tradução de Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 1991).
Na caixa lançada pela Biscoito Fino, há um dos sambas mais recentes da lavra de Vanzolini, gravado com extrema felicidade por Chico Buarque, Quando eu for eu vou sem pena, que também já registrara uma outra pérola do compositor, na década de 1960, Praça Clóvis: “Na Praça Clóvis/ Minha carteira foi batida/ Tinha 25 cruzeiros e o teu retrato…”
Mas o que este domingo mais me traz de vanzolini, numa época em que o melhor a fazer é procurar “manter a mente quieta/ a espinha ereta/ e o coração tranquilo” (Walter Franco, outro expoente da música feita em São Paulo) é exatamente um samba que vai na contramão desse compromisso em ter que demonstrar que tudo passou, que somos sempre mais fortes do que os sentimentos que nos desequilibram, do que a lembrança da mulher que ainda se ama, apesar da vida que se vai refazendo. E o samba que aqui quero cantar nesta esquina é exatamente este, Cara limpa:

Já me acostumei
Já nem ligo
Até exibo certa naturalidade
Amei, perdi, senti saudade
Roí muito osso duro
Arrastei bonde pesado
Hoje sou homem mudado
Faço planos de futuro
E não penso mais no passado

Já me acostumei
Com dia a dia
Em vez de vida inteira
Relógio, em vez de retrato na cabeceira
Posso lhe dizer
Que olho pra ela e nada sinto
Posso lhe dizer
Com a cara limpa enquanto minto
Posso lhe dizer

 Escrito por André Luís Câmara às 13h14
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“Para Wally Salomão e Nelson Jacobina”: Macalé faz 70 anos e homenageia parceiros e amigos em um dos grandes momentos do Circo Voador

03/03/2013

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Os Arcos da Lapa, ainda que tristes sem o bonde, compunham o cenário da festa: Jards Macalé, acompanhado por nova banda de jovens instrumentistas, comemorava seu aniversário e o da Cidade Maravilhosa presenteando o público com dezenas de canções que se tornaram clássicos da música popular brasileira.

Desde Let’s play that, parceria com Torquato Neto, a Vapor barato, uma de suas pérolas com Wally Salomão, o compositor foi acompanhado por centenas de vozes que confirmaram a perenidade de sua obra. Nem mesmo as falhas no microfone tiraram o encanto desse momento que contou ainda com os talentos de Adriana Calcanhoto, Ava Rocha e Thaís Gulin. No entanto, foram Macalé e seu violão que fizeram do show um dos momentos inesquecíveis na história do Circo Voador.

O samba tirado na caixa de fósforo teve sua vez no tributo a Nelson Cavaquinho, quando quase todos cantaram os versos de Juízo final (“O sol há de brilhar mais uma vez/ a luz há de chegar aos corações…). Walter Franco e Raul Seixas também foram lembrados pelo aniversariante que mais uma vez transitou deliciosamente entre ritmos e estilos diversos.

Tive vontade de cumprimentar Xico Chaves e falar daquele instante tão bonito em que sua parceria com Macalé, Pano pra manga, ganhou marcante interpretação de Ava Rocha. Mas não me aproximei do poeta e perdi a oportunidade de lhe dar um abraço e apresentar Maria, meu novo amor.

Ao final, a jornalista Clarisse Meireles, a quem não via há tempos, resumiu nossa emoção diante do espetáculo dedicado pelo próprio artista a Wally Salomão e Nelson Jacobina. Ela simplesmente me disse:”Que show bonito, André”!

Viva a música de Macalé!

O endereço certo para livros sobre o Rio: Folha Seca atrai leitores entusiasmados por música, futebol e a Cidade Maravilhosa

08/11/2012

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Dez entre dez cariocas que frequentam livrarias e gostam de Rio de Janeiro, música e futebol, têm endereço certo: a Folha Seca, instalada em um sobrado na Rua do Ouvidor, no quarteirão entre as ruas Primeiro de Março e do Mercado.

Difícil resistir às sugestões de Rodrigo Ferrari, que segue a tradição de notórios proprietários de estabelecimentos culturais naquela rua histórica, como o Frederico Figner, da Casa Edison, ou o José Olympio, da livraria que levava seu nome. Todos apaixonados pelo que vendiam. Além de comerciantes, divulgadores e propagadores de cultura pelas ruas do Rio.

Não foi à toa que em frente à Folha Seca nasceu o Samba da Ouvidor,  depois transferido para a Rua do Mercado. Ex-editor de publicações sobre choro e editor de livros sobre música, Rodrigo tem entre os frequentadores de sua livraria grandes instrumentistas.

Nessa loja eu encontrara, tempos atrás, a excelente biografia de Orestes Barbosa escrita por Carlos Didier e o delicioso e perturbador Evolução Urbana do Rio de Janeiro, de Maurício Abreu, entre outros títulos que aprecio. Uma das publicações editadas pela casa me foi presenteada por um dos meus mais recentes amigos de infância (afinidades que acontecem em Santa Teresa), o Luiz Antônio, que me deu Quando a bola era redonda, de Ivan Sóter.

Estive lá esta semana, atraído por um livro sobre Ismael Silva que me chamava da vitrine. Entrei para uma prosa rápida e saí com esse e outros dois livros preciosos para quem curte música popular brasileira: o fundamental Figuras e coisas da música popular – volume 1, de Jota Efegê, que se encontrava esgotado, e Acertei no milhar, de Cláudia Matos.

Ganhei em Rodrigo mais um torcedor pelas pesquisas que desejo prosseguir na linha da MPB. Uma livraria para cariocas, mesmo os não nascidos nesta cidade. Mas, fundamentalmente, um lugar para todos que amam o Rio e coisas ligadas à cultura da Cidade Maravilhosa.

Livraria Folha Seca
Rua do Ouvidor, 37 – Centro do Rio
Tel: (21) 2507 7175
E-mail: folhaseca@livrariafolhaseca.com.br
De segunda a sexta, das 10h às 19h
Aos sábados, das 10h às 15h

Acalanto para Pedro

11/08/2012

Partitura de Acalanto, de Dorival Caymmi

Para meu filho, nos seu 17 anos

Manhã de agosto à janela da Casa do Parto
trouxe o menino de cabelos tão amarelos,
veio como anjo que anuncia a boa-nova
esse que é o irmão de Gabriela e de Camila.

Durante uns anos eu o embalei na rede
e o carreguei no colo pela Rua Araucária,
cresceu o menino a consertar coisas e perder celulares,
a falar o idioma da ecologia, livros e computadores.

Eu vi quando ele descobriu o velho Chaplin
e se interessou pelo que falavam os hippies,
tão cedo a paixão nele incendiou tão Clara,
menino fadado a suportar o mundo nos ombros.

Só uma coisa me intriga no seu duvidar:
são seus olhos a indagar o que é a poesia,
e eu fico sem palavras com que explicar,
a não ser a lembrança daquele dia,

no entardecer em que ele, ainda bem criança,
ante a paisagem do bairro de Santa Teresa,
no quarto do hotel onde eu então morava,
me ensinou que o pôr do sol tem som.

Escrito por André Luís Câmara

Tem dias que a gente se sente como canção sem vocal e sem arranjo

08/08/2012

Brasil perde Magro, do MPB4, que morreu na manhã desta quarta-feira, aos 68 anos

A nova caixa com 21 CDs de Chico Buarque que começou a ser vendida nesta quarta-feira, 8 de agosto, contém em muitos títulos a participação de José Roberto Waghabi Filho, o Magro, seja nos vocais do MPB4, seja como o extraordinário arranjador que tanto vazio deixa agora na MPB, ao morrer na manhã de hoje, em São Paulo, em consequência de um câncer na próstata.

O MPB4, conjunto vocal que ajudou a fundar ao lado de seus parceiros de Niterói, Aquiles e Miltinho, e ao qual logo se integraria Ruy Farias, no ano de 1965 (substituído recentemente por Dalmo Medeiros), dificilmente teria feito tanta história se não fossem os arranjos de Magro. Não, ninguém pode duvidar do talento admirável de Ruy, Miltinho e Aquiles, mas Magro era uma espécie de Prático, aquele que, entre os porquinhos da fábula, ensina a fazer a casa.

Sua participação como o Jumento, na trilha sonora de Os Saltimbancos, gravada em 1977, reforça bastante essa ideia. Ao lado de Ruy, como o Cachorro, Nara Leão, como a Gata, e Miucha, como a Galinha, Magro perpetuou no imaginário infantil de todas as idades a certeza de que “Jumento não é/ o grande malandro da praça/ tarabalha, trabalha de graça…”.

Quando Sergio Bardotti se pergunta por que a adaptação de Os Saltimbancos fez e faz mais sucesso no Brasil do que o original italiano, é fácil acreditar que tudo se deva a Chico Buarque. Mas certamente o disco de 1977 contribui até hoje para manter acesa a chama do musical. E Magro tem uma participação considerável nesse sucesso.

A proximidade com o universo das canções feitas para crianças ficaria eternamente na trajetória do MPB4 com a interpretação de O Pato, de Toquinho e Vinícius, no antológico disco A Arca de Noé, de 1980, feito a partir de poemas do livro homônimo de Vinícius, publicado dez anos antes. Mais uma vez, sobressai aí o Magro arranjador.

Instrumentista versátil, que se notabilizou principalmente como tecladista, Magro foi responsável muitas vezes por unir as vozes do MPB4 junto às do Quarteto em Cy, como no show Cobra de Vidro, em 1978. Ou antes ainda no disco Cantores da Lapinha, com repertório inteiramente dedicado a Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro.

Em quase 50 anos de existência, o MPB4 deu à MPB uma série de momentos inesquecíveis. Na maior parte deles, Magro estava ali não só como o intérprete firme e doce (seu solo vocal em Nascente, de Flavio Venturini e Murilo Antunes, do disco Bons tempos hein, me chega à memória de modo comovente) mas como o maestro, o orquestrador, o harmonizador das vozes que para sempre há de ser lembrado e comemorado.

Amigo é pra essas coisas, Cicatrizes, Agora é Portela 74, Lamento, Vira virou, A lua, Roda Viva, Cálice, Fantasia. Tantas canções eternas acompanham a alegria por esse artista nascido no interior do estado do Rio nos ter dado tanto.

De Magro ficam a voz, a partitura e sua presença no palco, a dizer textos de Millor, Veríssimo, Aldir. Ficam as imagens dos festivais relembradas em documentários por aí. Fica aquele oboé do Braz, do Quinteto Villa-Lobos, antecedendo o vocal à capela do MPB4 na gravação imorredoura de Fantasia, em 1979. Talvez o mais emocionante e fundamental arranjo de Magro.

Ao voltar do almoço, abro meu e-mail no trabalho e leio mensagem de uma amiga, de São Paulo. Talvez certa de que eu já soubesse da morte do músico, é ela quem me dá a triste notícia. E me sinto assim como canção sem vocal nem arranjo.

Impressões sobre On the Road, em cartaz no Cine Santa Teresa

05/08/2012

Encontrei Beto Lago mais uma vez não muito depois que minha filha saiu… ela tinha vindo almoçar comigo, no sábado depois da praia, e seguira para uma festa com os amigos. Eu planejara ir ao Cine Santa Teresa ver o novo filme dirigido por Walter Salles inspirado no cultuado livro de Jack Kerouac. Sabia que Beto havia feito a mesma coisa na noite anterior e, ao encontrar com ele, perguntei o que havia achado. Depois de uma pausa, sorrindo, ele me afirmou que gostara bastante. Mencionou a trilha sonora e o modo como as palavras ditas pelos atores/ personagens soavam. Ficamos ali uns minutos a divagar pelo canto e a prosódia dos idiomas. Continuei a caminhada até o cinema, onde avistei Fábio, que esperava pela pipoca, porque não havia almoçado. Entramos e me sentei em uma das novas poltronas do espaço recentemente reinaugurado. Pouco antes de bater a porta de casa, eu havia colocado na vitrola um vinil de Chet Baker, como a querer procurar um clima para a preparação do filme que agora diante de meus olhos iniciava. Meu filho, que já o vira com a namorada, conversara um pouco comigo a respeito, dias antes, e me perguntara sobre o livro. Só então me dispus a encarar a versão do manuscrito original que deixara pela metade, há cerca de um ano, quando finalmente pensei que iria saldar a dívida de jamais der lido On the Road, apesar de me lembrar nitidamente de, nos anos 1980, ter em mãos a tradução Pé na estrada, feita pelo Edurado Bueno, o Peninha. Diante da nova tela do Cine Santa Teresa, me senti arrastado a um turbilhão de emoções, enquanto Kerouac narrava seu encontro com Neal Cassady, Allen Ginsberg, William Burroughs e outros, todos com os nomes trocados, tal qual no livro lançado em 1957. Esse, que talvez pudesse ser o melhor filme de Walter Salles, parece, a um certo momento, deixar que alguma coisa lhe escape. E só então me dou conta de que o filme se ressente, em sua parte final, da ausência de Louanne/ Marylou interpretada pela bela Kristen Stewart. E quase acredito que tudo se torna demasiadamente cansativo. Até que o No caminho de Swan que aparece em diversas cenas do filme, como a inspirar Jack/Sal a escrever, passa a fazer todo o sentido quando Walter Salles parece nos convidar a presenciar o instante em que Kerouac proustianamente percebe que o que tinha a dizer estava nas horas passadas na estrada, a partir do momento em que conhece Neal/Dean. E as lembranças e o nó na garganta que vão ritmando as palavras em folhas coladas que formam um grande e histórico rolo me lembram uma passagem de A Gravidade e a Graça, de Simone Weil, quando a pensadora francesa observa: “Aperto de mão de um amigo reencontrado após uma longa ausência. Não percebo sequer se, para o sentido do tato, é um prazer ou uma dor: assim como o cego sente diretamente os objetos na ponta de sua bengala, sinto diretamente a presença do amigo”. E, mais adiante, no mesmo livro, continua: “Desejar a amizade é um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que oferece a arte, ou a vida. É preciso recusá-la para ser digno de recebê-la: ela é da ordem da graça”. Saio do Cine Santa Teresa irreparavelmente comovido e, com Fábio, me dirijo ao nosso bar de esquina onde brindamos com Zé Oliva, artista plástico que nos apresenta Mariana e sua mãe, Raquel. As duas moram em Rio das Ostras, onde mantêm um restaurante especializado em frutos do mar. E a noite se estende entre goles de cerveja, caipirinha e histórias do festival de jazz que as duas ajudaram a organizar. Ao perceber Mariana inteiramente alterada, sugiro que ela beba um pouco de água. Ela me fala sem parar a respeito da influência da lua sobre as mulheres e como é difícil menstruar a cada mês e se manter bem aos olhos de todos. Ela me conta do pai, cocainômano e chef de cozinha, morto há cinco anos. Me cospe algumas gotas de água e de caipirinha enquanto fala, excitada. E Zé, de repente, se chega a ela como a interromper alguma coisa que pudesse acontecer entre nós. Depois que ela se vai com a mãe, rumo à pousada onde se hospedaram, Zé comenta que Raquel lhe confideciou que a filha é extremamente depressiva e ele, por querer me socorrer, se colocou entre nós. Não sei se agradeço ou estranho esse gesto, afinal eu, Thiago, um homem solteiro a caminho dos cinquenta anos posso muito bem ficar com quem quiser sem que ninguém se incomode com isso. Mas me ocorre que gostaria de ver On the Road com Zé e também Renato, médico e saxofonista, que acaba de chegar com sua namorada francesa. Bebemos juntos uma dose dupla de Jack Daniel’s em homenagem a Kerouack. E eu me recordo de Fernando e Joana e penso o que teria nos acontecido se, naquela noite em que os conheci após a montagem de A Tempestade, no Parque Lage, tivéssemos visto, com nossos dezessete anos, no início dos anos 80, o filme de Walter Salles. E brindo também por Mário, que novamente disse que viria a Santa Teresa e se deixou prender em Ipanema, como numa cena de O Anjo Exterminador, e ainda brindo por Augusto, que certamente teria oferecido a nós uma dose de Jameson, mas se recolhera mais cedo certamente para estudar as barbadas do Grande Prêmio Brasil, haja vista sua paixão por cavalos, além do América Futebol Clube, campeão em 1960. E lá pelas tantas, Zé, Renato e a moça francesa passam a discutir sobre música digital e a perseverança do vinil. E Zé reafirma seu desprezo pelo CD e o MP3. Me grita, “Thiago, eu só escuto vinil!”, e eu me despeço e retorno, por uma das ladeiras do silêncio de Maurício Porto, à casa das minhas esquinas e dos meus quintais. E acordo no domingo chuvoso com vontade de recomendar, a um monte de gente, On the Road, em cartaz no Cine Santa Teresa.

Meu caro Rio

10/07/2012

Café Gaúcho: botequim com preços razoáveis

Comer no Rio ficou caro. E nem só isso, os preços dos imóveis para compra e aluguel também dispararam.  Manchetes de jornais impressos e eletrônicos destacam hoje dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE que apontam a alta do custo de vida nesta cidade, principalmente quanto à alimentação e ao transporte.

Mas nem era preciso consultar o IBGE. Uma amiga minha, que moraem São Paulo, de passagem por aqui, no último fim de semana, constatou pesarosa que o Rio está caro. E amigos cariocas, em papos de esquina, vez por outra fazem essa mesma afirmação.

Na hora do almoço é que se percebe como boa parte dos estabelecimentos, cada vez mais, parecem visar exclusivamente ao bolso dos turistas. Curioso é que muitos turistas preferem comer em lugares baratinhos para fazer mais passeios. No entanto, os lugares baratinhos estão raríssimos, em meio a preparações para Copa do Mundo e Olimpíadas.

O sanduíche ainda é uma saída, muitas vezes. Bem, é certo que alguns chegam a custar R$ 20,00, mas há recantos onde o velho botequim se mantém entre fatias de pernil, carne assada, bife à milanesa ou tender acompanhadas de pão francês por preços razoáveis.

Um local assim é o Gaúcho, no Centro, desde 1935 na esquina das ruas São José e Rodrigo Silva.  Na média, um sanduba sai a R$ 8,00 e pode ser acompanhado de refrescos como laranja ou caju. Os bolinhos de bacalhau e carne custam cerca de R$ 2,50. Uma pedida certa lá é o sanduíche de linguiça acebolada ou simplesmente cachorro de linguiça.
(Veja detalhes no endereço http://www.cafegaucho.com.br).

Parados ali no balcão, à beira do chamado Buraco do Lume, contemplamos aquele cenário da Esplanada do Castelo, adentramos o passado na imaginação e nos espantamos de destruírem um morro assim, a jato d’ água. De retorno ao presente, escutamos coisas como “pernil magro no pão canoa” ou “carne assada com bastante molho”!

Botequim dos bons, o Gaúcho não está ali só para oferecer opções de alimentação rápida. É lugar também para o chope no fim do dia e, a contar a quantidade de pessoas que atrai, de segunda a sábado, não deixa nada a dever aos bares mais procurados na cidade.

Mas o preço, a R$ 4,50, não esconde que um chopinho, apesar de ainda ser muito bom no Rio, está caro como as passagens de ônibus e metrô. Quanto aos táxis, qual deles sobe Santa Teresa?

Café Gaúcho
Rua São José 86
Centro do Rio
Segunda a sexta, das 7h às 21h
Aos sábados, das 7h às 15h

Escrito por André Luís Câmara

Cida Moreira admirável no Ensaio

09/07/2012

 

O diretor Fernando Faro e a cantora Cida Moreira durante as gravações do programa transmitido pela TV Cultura. Imagem reproduzida da página da Cultura na internet

Se você não pôde assistir ao Ensaio com Cida Moreira no domingo, tem mais uma chance no horário alternativo, a 1h da madrugada (TV Cultura) desta terça-feira, 10 de julho. Para quem tem que acordar muito cedo é puxado, mas se você curte Kurt Weill, Bertold Brecht, Chico Buarque, Mário de Andrade e Amy Winehouse, garanto que não vai se arrepender de ir dormir um pouco mais tarde. A salada de gêneros musicais talvez pareça estranha aos que desconhecem o estilo de Cida Moreira, mas tudo soa natural na voz e no piano dessa Dama indigna, título de seu mais recente CD.

 

Eu me lembro quando ela despontou para o grande público, no documentário sobre Chico Buarque, Certas palavras, de Mauricio Beiru, em1980. Cantava uma interpretação inesquecível de Geni e o zepelin. Este, aliás, o número de encerramento do programa dirigido por Fernando Faro.

A gente pensa que depois de coisas antológicas como o especial com Elis ou Vinicius ou Cartola ou Nelson Cavaquinho não vai ver nada de tão fundamental na TV, mas Fernando Faro continua incansável e nos presenteia com uma Cida Moreira cantora, instrumentista, atriz, uma artista inteira, completa. É lindo vê-la curtir o que faz, o que canta, seja uma modinha do século XIX recolhida por Mário de Andrade, seja um número musical de uma peça de Brecht.

E Cida Moreira me fez lembrar que, nos últimos dias, deixei de ir a uma festa de vizinhas que adoro, não fui à apresentação de Jorge Salomão no Parque das Ruínas, mas consegui rever uma amiga que mora em São Paulo, apesar da chuva intensa que caiu sobre o Rio. E a vida é isso aí, nem sempre conciliamos horário e ânimo para estar perto de quem gostamos.

Mas podemos pensar que há coisas que adoraríamos partilhar com quem temos afinidade, com quem trocamos afetos de poesia e canção. E Cida Moreira, no Ensaio, sob a direção de Fernando Faro, é para mim exatamente isto: um convite a uma reunião com amigos, a uma tertúlia (Zod que o diga!), para apreciar a arte de cancionistas maravilhosos. Evoé!

Encantamento no palco e na plateia: monólogo com Júlio Adrião consagra projeto de ocupação do Teatro Serrador

06/07/2012

A ocupação do Teatro Serrador, na Cinelãndia, no centro do Rio, acaba de render ao Grupo Alfândega 88 indicação ao Prêmio Shell na categoria especial. A montagem da peça Negra felicidade, no mesmo teatro, possibilitou ao grupo uma outra indicação ao prêmio, a de melhor diretor, para Moacir Chaves.

Essa peça deve voltar ao cartaz brevemente, no instigante sistema de rodízio de companhias teatrais que, nos últimos meses, têm se apresentado no palco do Serrador, a convite do Alfândega 88.

Os premiados só serão conhecidos em 2013, mas a iniciativa do grupo liderado por Moacir Chaves é, desde já, vitoriosa. Prova disso foi o estrondoso sucesso de mais uma apresentação, na última quinta-feira, de A descoberta das Américas, o monólogo em que o ator Júlio Adrião (Prêmio Shell 2005) brilha em extraordinária performance, sob a direção de Alessandra Vannucci. Ambos assinam a adaptação do texto original de Dario Fo.

A estreia desse monólogo, há cerca de seis anos, em um espaço próximo à Praça XV, também no centro do Rio, levou o escritor Fausto Wolff, já falecido, a escrever uma das críticas mais elogiosas já feitas a um espetáculo de teatro.
E não é para menos: em uma hora e meia, o público é levado a rir e emocionar-se e, em certos momentos, a fazer um silêncio que só acontece quando todos na plateia comungam ou partilham de um instante a que Todorov identifica como sublime ou absoluto, em seu recente livro A beleza salvará o mundo.

Tive a oportunidade de ver A descoberta, anos depois da estreia, durante a montagem que aconteceu no Teatro Maria Clara Machado, no Planetário. Na época, publiquei um texto a respeito, em meu antigo blog (leia aqui).

Motivado pelo projeto de ocupação do Teatro Serrador, fui conferir mais uma vez esse instante iluminado, que tanto me fez lembrar do prefácio escrito (e depois rejeitado) por Oduvaldo Vianna Filho para sua última peça, Rasga coração. “Aqui o que comove é o espetáculo da gratuidade”, diz Vianinha.

Na sessão de ontem, Júlio Adrião foi aplaudido em cena aberta ao menos duas vezes. E, como em outras ocasiões em que o monólogo foi apresentado, o ator foi completamente ovacionado, ao final, por um público grato e repleto de encantamento.

Não sabemos se Júlio e Alessandra continuarão a querer encantar as plateias durante mais algum tempo com esse espetáculo. Afinal, artistas devem se dedicar sempre a novos projetos. Por isso, se você é daqueles que amam o teatro, não deixe de ver A descoberta das Américas, nesta sexta-feira, 6 de julho, às 19h, no Teatro Serrador (Rua Senador Dantas 13 – Cinelândia). Ingressos a R$ 20,00 (inteira) e a R$ 10,00 (meia).

Uma vitrine na Travessa do Ouvidor

20/06/2012

Detalhe de vitrine da Livraria da Travessa, na Travessa do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro

Ao passar pela Travessa do Ouvidor,
durante a concessão para o almoço,
ante a vitrine da livraria estanco
e contemplo, escrito a giz no quadro negro,
trecho de antiga entrevista de Graciliano,
que afirma: “A palavra não foi feita
para enfeitar ou para brilhar como ouro falso;
a palavra foi feita para dizer”,
e compara o ato de escrever ao ofício das lavadeiras
que enxaguam, torcem e batem a roupa na laje,
a palavra não foi feita para escamotear
decisões, acordos, consensos institucionais,
no entanto a palavra, deslocada, hoje está
a servir ao ilusionismo das grandes corporações,
ao cinismo da politicagem mais sórdida,
à perda de tempo dos comentários inúteis,
ao desgaste dos redatores de memorandos de plantão,
mas a palavra ainda resiste e desperta e espanta e comove
na arena internauta, na profusão das telas, no livro digital,
nas páginas amarelecidas do velho caderno,
na boca das mulheres que metem o peito pelas ruas e tocam o tambor da luta,
no maltrapilho moribundo, excluído, que aparenta falar sem nexo
ou mesmo no perene texto escrito a giz no quadro negro,
entre memórias de Angústia, Vidas secas, Insônia, Infância,
palavra que continua a dizer,
ainda que como artigo de vitrine na Travessa do Ouvidor.

Escrito por André Luís Câmara